A delícia de ser desimportante

Quando Guy Debord escreveu seu brilhante livro A Sociedade do Espetáculo, ainda não imaginava os efeitos das redes sociais na vida das sociedades. Creio que ele não sabia que sua obra seria cada vez mais atual, e uma importante bússola para quem procura ser desimportante, nesse mundo de tantos apelos EXTRAORDINÁRIOS.

Vivemos em uma sociedade de intensos, que valorizam a superprodução, o viver em ritmo máximo, o status, os aplausos e o reconhecimento a todo custo. Um mundo em que o PARECER, ganha mais relevância que o FAZER e o TER. E em que o SER se torna algo de menor valor.

Como bem previu Debord, vivemos na supervalorização da imagem.

Nesse contexto, aprender e desfrutar a delícia de ser desimportante parece ser mais que um alívio; torna-se um refúgio para as almas sensíveis que entendem que: desfrutar a vida é muito mais do que acumular bens e realizações.

Desfrutar a vida é, também, e talvez principalmente, dispor de tempo e calma para desfrutar de si mesmo. Pois, como ensinava Carl Jung, o caminho é para dentro de nós, a jornada da vida é nosso interior.

E quanto mais você leva a sério essa jornada de ensimesmar-se, menos você se apega a padrões e exigências externas. Quanto mais você se adentra, menos você fica preso ao exterior. E é aí que se encontra a ideia de ser desimportante.

Mais para frente comentarei brevemente o filme Perfect Days, que nos dá uma visão libertadora do viver de forma desimportante.

Ser desimportante não tem nada a ver com ser insignificante

Basicamente, ser desimportante é desapegar-se dos padrões e julgamentos sociais. É olhar para si e fazer o que realmente lhe importa e lhe preenche, independente dos padrões e conceitos de sucesso dessa sociedade do espetáculo.

É conhecer-se e tornar sua vida importante para você mesmo.

É claro que vivemos em sociedade. E, sim, precisamos nos adequar a algumas regras. Porém, não precisamos viver submissos a conceitos que não fazem sentido para nossa essência.

Para ser considerada uma pessoa bem-sucedida na sociedade do espetáculo, você precisa se enquadrar em uma infinidade de padrões, tipo:

✔Tem que ser uma pessoa muito viajada, de preferência conhecer vários países;

✔Quase obrigatório ter um corpo atlético e definido, hoje em dia ser maromba e tatuado tá na moda também;

✔Ajuda muito para o status ser uma pessoa muito sociável, com uma coleção de melhores amigos do mundo;

✔Em certos grupos, ostentar vários títulos acadêmicos e diplomas é considerado um luxo;

✔E claro, ostentar a família perfeita, ou o casal apaixonado, que está sempre se amassando nas redes sociais gera uma ótima impressão;

✔Talvez ser engajado em uma causa social, ou em um trabalho com animais (amar e desejar pets é super bem visto);

Enfim, eu poderia falar de vários conceitos e padrões, que se encaixam nos mais variados grupos. E tudo isso para você se destacar e ser uma pessoa admirada, considerada importante de alguma maneira.

Não há nada de errado em ser bem-sucedido e desejar boas coisas/experiências na vida

Definitivamente, não há problema algum em SER uma pessoa realizada e socialmente admirável. O problema é desejar viver em função disso, ou mesmo sacrificar-se para se encaixar em padrões sociais.

A grande questão é se esforçar tanto para PARECER a pessoa mais descolada do mundo, e, de repente, perceber que nada disso realmente lhe preenche. Que você continua com uma sensação de vazio ou de que sempre precisa subir mais um degrau para, finalmente, se sentir satisfeito.

E o pior, viver naquela paranoia de competição. De que tem sempre alguém querendo brilhar mais que você, chamar mais a atenção, e isso não pode acontecer.

É muito cansativo querer PARECER bem-sucedido o tempo todo, em tudo. Encaixar-se em todos os padrões. Na verdade, é extenuante, e óbvio, bastante lucrativo.

E repito: isso não é papo de invejoso, que não conseguiu se dar bem e fica ressentido (risos). É uma reflexão que visa conhecermos nossos limites, nossas prioridades, as coisas que realmente nos fazem bem. É dar uma pausa para pensar: AFINAL DE CONTAS, O QUE REALMENTE IMPORTA? E ter a coragem de trilhar um caminho que lhe faça sentido. Mesmo que essa jornada não nos proporcione status e aplausos.

Perfect Days: um filme perfeito

No filme japonês Dias Perfeitos, o personagem Hirayama, um zelador de banheiros públicos, de meia idade, nos mostra como uma pessoa pode possuir grande riqueza interior, apesar de ser considerada socialmente “fracassada”.

Hirayama era um homem culto, sereno, com uma vida que parecia lhe proporcionar prazer e autorrealização. E tudo isso com muita simplicidade, sem grandes “feitos” e sem ser um destaque.

A ideia central é: uma pessoa comum, quase que invisível socialmente, mas pessoalmente realizada, de bem com a vida. Um homem que não está se esforçando para se encaixar em nenhum padrão, muito ao contrário, pode até ser considerado atrasado, desinteressado. Porém, parece gozar de grande contentamento.

O bacana de ser desimportante é isso: viver de uma maneira que importa para você, e não para os outros.

Sabe essa história de uma vida corrida, multitarefa, com agendas lotadas, e dinheiro para comprar um tanto de treco e experiências que, em determinado ponto, só cansam?

Pois é, o desimportante herói do filme vive longe de toda essa agitação, e parece estar se dando bem.

conclusão do artigo corpo em movimento

Algumas vantagens de ser uma pessoa desimportante

Vejamos algumas vantagens práticas de ser socialmente desimportante:

Libertar-se dos muitos medos e expectativas:

Por não estar no centro das atenções, você não precisa carregar o peso das altas expectativas, ou o medo de não atender a padrões elevadíssimos. Isso pode levar a uma vida mais leve, sem o constante sentimento de que você precisa “ser algo”, “ter algo” ou “fazer algo” para agradar aos outros.

Você tem a liberdade de ser o que quiser: de ficar bilionário, ou não; de ter um corpo escultural, ou não; de falar dez idiomas, ou mal-mal o seu; de ter uma linda família estilo comercial de margarina, ou uma coleção de gatos. Enfim, você é livre para ser o que decidir ser, independente da aprovação ou reprovação da plateia!

Desfrutar de maior liberdade de experimentação:


Sem a cobrança de ter que manter uma imagem pública ou de grande importância, você tem mais liberdade para explorar novas ideias, mudar de rumo e experimentar. Isso facilita a reinvenção pessoal e a busca por interesses autênticos.

Eu senti isso na pele quando decidi adotar os dreads. Não ter de estar no padrão é libertador, e lhe permite descobrir, com calma, o que lhe cai bem, em todos os sentidos. Memo que a maioria das pessoas reprovem.

Relacionamentos mais autênticos e significativos


Quando se é socialmente desimportante, você tem a sensação de estar cercado de pessoas que realmente se importam com quem você é. Quem decide estar ao seu lado é porque gosta de você, e não pelo que você pode oferecer.

Quando fiquei doente, pude experimentar esse carinho por parte de minha família. Você pode ser socialmente desimportante, mas será sempre relevante para as pessoas que lhe amam.

E esses detalhes fazem a vida ser mais leve.

Você pode desfrutar de um tempo de maior qualidade

Quando você não precisa trabalhar tanto, estudar tanto, se divertir tanto, comprar tanto e fazer tantas coisas para se inserir em um contexto social, sobra-lhe mais tempo para fazer o que Carl Jung considerava essencial à vida: desfrutar de tempo para estar em uma constante busca por sua verdade, sua essência.

Veja bem: você pode praticar em sua vida a busca pela INDIVIDUAÇÃO. Não estar preso a tantos padrões sociais, liberta-lhe para estar compromissado consigo mesmo.

Enfim, essas vantagens mostram que, apesar do termo “desimportante” ter uma conotação negativa, há aspectos positivos em viver com menos pressões sociais e mais liberdade para ser quem você realmente é.

Cada pessoa tem seu próprio caminho e, às vezes, encontrar satisfação na simplicidade e na autenticidade pode ser um grande diferencial para uma vida mais equilibrada e feliz.

Conclusão: as vantagens de ser desimportante

A conclusão é que ser socialmente desimportante lhe ajuda a ter mais tempo, energia e recursos para SER o que realmente lhe importa. E a consequência é que você terá, fará e parecerá ser você mesmo, de forma autêntica.

Ser socialmente desimportante pode significar ser individualmente muito relevante.

Adentra-se, compreender o que lhe traz verdadeiro sentido de realização, independente dos padrões e expectativas sociais. Se você conseguir construir isso, poderá descansar na certeza de uma jornada que vai se orgulhar da sua jornada.

E aí, o que você pensa sobre o assunto? Se desejar, deixe seu comentário no formulário abaixo.

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No mais, desejo-lhe sucesso, saúde e serenidade.

Cintia Amorim.

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