
Este é um dos artigos mais hipócritas que você vai ler na sua vida. Quem sou eu para falar sobre “dominar a mente”? A minha parece mais um trem doido… mas… vamos lá. Não custa ao menos refletir sobre o assunto com um pouco de bom humor.
Um dia eu consigo ficar no agora
Você já tentou “ficar no agora” e, quando percebeu, já estava planejando o jantar da semana que vem, lembrando de uma conversa de dez anos atrás ou criando diálogos fictícios dignos de novela mexicana? Pois é. Bem-vinda(o) ao clube mais antigo da humanidade: o das mentes inquietas.
A boa notícia é que, ao longo dos séculos, gente muito séria (e também muito engraçada) se debruçou sobre essa questão: como lidar com a mente que não para? Como, enfim, dominar a mente?
Aqui vão algumas dicas, com simplicidade e profundidade, para quem deseja domar o cavalo selvagem dos pensamentos sem perder o bom humor.
Buda e a mente-cavalo
Lá no Dhammapada, Buda já avisava: “A mente é difícil de controlar, volúvel, mas pode ser domada.”
Quer dizer, sua mente não é um vilão rebelde e desobediente, mas sim um cavalo jovem e arisco. Então, é preciso saber lidar com ela, com testes, experiências, erros e acertos.
Pense no adestramento de um cavalo: se você puxa demais as rédeas, ele empaca; se solta demais, ele dispara. O segredo está, realmente, no caminho do meio.
E, em se tratando de dominar a mente, podemos perceber que não devemos ser duros demais, críticos demais com nossos pensamentos. E, tampouco, devemos ser permissivos. O lance é equilibrar entre liberdade e controle. Nos colocar como supervisores que não impede os processos, nem deixa as coisas soltas demais.
Colocando prática: sente-se, observe os pensamentos e deixe-os passar como nuvens no céu. Não precisa expulsar ninguém da festa mental, apenas não sirva cafezinho para os pensamentos intrusos. E lembre-se: isso exige muuuito treino e paciência.

Os estoicos e o poder do “não é comigo”
Epíteto e Marco Aurélio tinham uma tática que funciona bem até hoje: dividir tudo em duas categorias: o que depende de mim e o que não depende.
Se não depende de você, agradeça ou desapegue, e siga em frente. Se depende, respire fundo, avalie a questão com cuidado e faça o que precisa ser feito.
Isso ajuda a desocupar a mente de um monte de preocupações que, na prática, só vão nos ocupar mesmo. Saber distinguir, com calma e clareza, no que podemos interferir, ou não, nos ajuda a fazer uma grande faxina mental.
Colocando em prática: quando a mente começar a dramatizar, pergunte: “Isso está sob meu controle?” Se a resposta for “não”, dê férias ao pensamento. Se for sim, é hora de estudar a situação e tentar mapear ações.
A mente amiga e inimiga, versão hindu
Gostei muito de ler a Bhagavad Gita, e achei interessante como a mente é apresentada: como sua maior amiga e sua pior inimiga. Tudo depende de como você a treina, e usa no dia a dia.
É aquela velha, e sempre atual história de: onde colocamos nosso foco, ele cresce. E, às vezes, sim, perdemos o controle do nosso foco. Acredite: já passei muito por isso nessa trajetória de tentar aprender a dominar a mente.
O que me ajudou foram pequenos exercícios com o corpo, e pequenas orações, tipo mantras mesmo, especialmente o ho’oponopono.
Isso me fez, aos poucos, manter o foco a maior parte do tempo em pensamentos construtivos.
Colocando em prática: cultive um micro-hábito diário que traga alinhamento (um alongamento de dois minutos, uma respiração consciente, uma oração curta). Pequenas disciplinas amansam a fera.
Zen: lavar a louça também é iluminação
Os mestres zen são mais práticos. Eles diriam: “Está com a mente inquieta? Vai varrer o quintal.”
O truque é que qualquer coisa pode virar meditação: cozinhar, caminhar, até ouvir o barulho da chuva. No meu caso, funciona ainda mais se, durante a tarefa, eu ouvir um bom sambinha.
Especialmente se estiver num dia com a vibe mais negativa. Distrair-se com tarefas e uma boa música animada pode, sim, ser um ótimo exercício mental.
Colocando em prática: escolha uma atividade do cotidiano e faça-a com atenção total, sem multitarefas. É o jeito mais democrático de entrar no agora.

Cristãos místicos e o macaco da mente
Santa Teresa d’Ávila dizia que a mente em oração era como um macaco pulando de galho em galho. Para ela, esse “macaco” era parte da condição humana. A oração não consistia em calar tudo de uma vez, mas em aprender a trazer a atenção de volta, com suavidade, sempre que se perdesse.
Ou seja, até uma santa mística do século XVI aceitava que a mente “escapole muito”. O mérito está em voltar ao centro e não em se culpar pela distração.
Colocando em prática: Relaxe! E quando perceber a bagunça mental, não se culpe. Apenas volte e, se possível, dê risada do seu próprio macaco interior. Se quiser, coloque um apelido nessa fase de sua mente e converse com ela, tipo: cê tá que tá hoje, hein, macaquinho!
Montaigne: rir da própria cabeça
Nos ensaios de Montaigne, a mente não era um problema a ser vencido, mas uma curiosidade a ser observada. Ele anotava suas divagações e as transformava em sabedoria.
Para Montaigne, a mente era como uma visita inesperada que, em vez de ser enxotada, podia ser convidada para se sentar à mesa. A abordagem de Montaigne é um pouco mais tranquila: tentar escutar o que a mente tem a dizer.
No fundo, Montaigne nos mostra que observar a mente não precisa ser apenas exercício de disciplina, pode ser também exercício de amizade consigo mesmo.
Adoro Montaigne!
Exercício montaigniano: escreva. Puxe conversa com sua mente no papel. Você vai perceber que ela fica mais dócil quando é escutada.
Dicas super falíveis para ajudar a dominar a mente
- Respiração: tente prestar bastante atenção na sua respiração. Respirar pode ser uma âncora portátil. Ajuda a manter o foco, pondo sua mente em dispciplina.
- Pergunta estoica: “Isso depende de mim?” Lembre-se sempre de fazer esse questionamento, quando sua mente se agitar por alguma questão.
- Caderno: despeje seus pensamentos em um caderno, em um diário. Procure escrever à mão mesmo. Deixe as ideias saírem com fluidez e, depois, simplesmente feche a tampa.
- Humor: rir da própria mente é uma forma de não ser sequestrado por ela. De vez em quando brinque com a teimosia dela, faça piadas. Garanto que é melhor que ficar frustrado.
- Repetição: cada vez que você volta para si, está reforçando o músculo do domínio. Então, este é o treino: repita-o sem cansaço.

Conclusão: dominar a mente ou voltar?
Dominar a mente não é silenciá-la para sempre. Talvez isso aconteça em filmes de artes marciais ou cursos de meditação. Na vida real, o que podemos fazer é voltar a atenção. E também estarmos conscientes sobre o que pensamos.
Voltar para o corpo, para a respiração, para o instante. Voltar mil vezes, se preciso. E, quem sabe, rir um bocado no meio do caminho.
Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro domínio da mente seja esse: não levar tanto a sério a tempestade de pensamentos e aprender a voltar para o que importa.
Portanto, o negócio é não desistir! Meditemos!
No mais, desejo-lhe sucesso, saúde e serenidade.
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