O que podemos aprender com Fausto, de Goethe

Confesso que Fausto, de Goethe, foi um dos livros que mais demorei a ler na vida: e tive muita dificuldade de entender o conteúdo da obra, especialmente a segunda parte.

Tudo bem que comecei a leitura, talvez, em idade um pouco precoce: 15 anos. Mas realmente desisti inúmeras vezes , até que alguns anos atrás eu disse: -chega, agora eu termino esse trem. (risos)

Mas… e aí? O que posso dizer que aprendi com a obra de Goethe? E que lições práticas posso tirar para meu dia a dia?

Farei uma breve reflexão a respeito. Lembrando sempre que não sou especialista, apenas admiradora da boa literatura.

Fausto, de Goethe, e sua mensagem tão atual

Poucos livros atravessam os séculos com a mesma força que Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe. Uma mensagem que se mantém sempre muito atual.

Fausto é um daqueles clássicos que muita gente começa a ler e deixa de lado: principalmente quando chega à segunda parte, com todas as referências mitológicas, filosóficas e políticas. Sim, é bem profunda, e às vezes, bem chata mesmo.

Ainda assim, vale a pena insistir na leitura. Porque, por trás da trama densa, está uma pergunta que não sai de moda:

-Afinal, o que pode dar sentido à vida?

Ou, como já escrevi muitas vezes aqui no blog:

-O que, de fato, nos preenche?

O pacto com o diabo: e os nossos pactos do dia a dia

Fausto era um estudioso brilhante, que estava cansado, frustrado, entediado. Ele sentia que já havida lido de tudo, pesquisado, acumulado extenso conhecimento… e nada disso preenchia o vazio que carregava no peito.

Então, ele decide fazer um pacto com o diabo, na figura de Mefistófeles. E o acordo era: em troca de sua alma, ele teria acesso a todas as experiências, prazeres e tudo o que pudesse desejar.

Nessa parte, lembrei de Jesus sendo tentado no deserto, quando o diabo oferece a Ele todos os poderes do mundo. Isso me fez pensar que não é de hoje que estamos dispostos a nos vender em troca de determinados prazeres.

De certa forma, todos nós, em algum grau, fazemos pequenos “pactos” ao longo da vida:

  • às vezes sacrificamos saúde em nome de produtividade,
  • ou aceitamos relações vazias só para não ficar sozinhos,
  • nos submetemos a nefastas regras religiosas para recebermos uma recompensa pós-vida,
  • até mesmo trocamos autenticidade pela aprovação alheia.

Sim, são muitas as trocas. E Goethe nos lembra que sempre existe um preço a ser pago por elas.

A doce Margarida e a (ir)responsabilidade afetiva

No meio desse pacto, Fausto se envolve com Margarida, uma jovem bela, simples e doce. Fausto se encanta com a moça. E o romance parece promissor, até que o peso das escolhas de Fausto arrasta a vida dela para uma série de tragédias.

A vergonha e o escândalo social – Depois que o romance de Fausto e Margarida se torna público, Margarida sofre humilhação na sociedade. Ela é julgada por seu relacionamento com o protagonista.

Morte da mãe – A mãe de Margarida morre, e há a sugestão de que isso ocorre em parte por envenenamento indireto ligado às ações de Fausto (ela toma um remédio dado por ele ou por influência de Mefistófeles), o que aumenta a culpa e a tragédia de Margarida.

A morte do irmão – O irmão de Margarida, Valentin, é morto em duelo, defendendo a honra da irmã, o que é um ponto dramático importante, aumentando o peso de culpa e sofrimento que a personagem sente.

Gravidez e isolamento – Margarida fica grávida de Fausto. Sozinha, sem apoio social ou familiar, enfrenta o desespero e a vergonha.

O infanticídio e prisão – No auge da tragédia, Margarida mata seu próprio filho em um estado de desespero e é presa, condenada pela sociedade. Este é o ponto culminante de sua tragédia pessoal.

Enfim, Fausto destrói Margarida, o que nos ajuda a lembrar de uma verdade dura:

Muitas vezes, as nossas decisões não afetam só a nós mesmos. Há sempre alguém ao redor que sofre (ou se beneficia) do que fazemos. O drama de Margarida é um lembrete sobre responsabilidade afetiva.

E este é um tema atualíssimo, principalmente em tempos de relações cada vez mais descartáveis. Não raras vezes, frutos de um desejo que não mede consequências.

envelhecer com consciência

A segunda parte do livro: densidade mitológica e aplicação prática hodierna

É verdade: a segunda parte de Fausto pode parecer um carnaval de referências à Grécia Antiga, deuses, política e filosofia. Mas, por trás dessa erudição toda, há um fio condutor: Fausto, poderoso e insaciável, continua buscando satisfação intensa para sua vida.

Porém, como vemos todos os dias ao nosso redor, agora ele a busca em novos patamares: poder, beleza, riqueza, grandes construções. Afinal, nos acostumamos facilmente com nossas conquistas. E, por maiores e mais difíceis que possam parecer, mesmo assim, o vazio sempre permanece.

E isso é especialmente real em tempos hodiernos, de quase infinitas possibilidades de escolhas de consumo e lazer. Vivemos tempos em que redes sociais nos aplaudem a cada nova conquista, acostumando o ego a um ritual de semi-adoração.

O que Goethe mostra, em seu livro, de maneira quase alegórica, é que a corrida pelo prazer e pelo sucesso nunca termina. Sempre haverá mais uma experiência, mais um desejo, mais um objetivo a ser alcançado. Mas nada disso garante plenitude. Simplesmente porque, como já escrevi em alguns artigos aqui:

O caminho é para dentro. E só o que é interior pode realmente trazer sentido e realização. Aliás, Marco Aurélio já dizia isso há séculos.

O legado de Fausto. E o nosso?

No final, Fausto quase se redime, e encontra um vislumbre de sentido para a vida, mas não no prazer pessoal. Ele o encontra no esforço de construir algo que beneficie os outros. E acaba confirmando o que o imperador Marco Aurélio já dizia tempos atrás:

“O que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha”. 

E Goethe, em sua obra, endossa isso: a vida ganha mais valor quando transcende o ego e se conecta ao coletivo.

Hoje, em um mundo onde somos constantemente estimulados a “aproveitar a vida ao máximo”, “acumular bens e/ou experiências” Fausto soa como um aviso: talvez a verdadeira realização não esteja em, simplesmente, multiplicar patrimônio e experiências, mas em cultivar algo que permaneça, que faça diferença na vida das pessoas.

É um chamado a não viver em função de apenas alimentar o próprio umbigo, porque, quanto mais damos poder a ele, mais insaciável se torna. E podemos ver isso todos os dias.

Conclusão: o que Fausto, de Goethe pode nos ensinar

Reler Fausto, ou encarar essa densa leitura pela primeira vez é, no fundo, um desafiador exercício de autoconhecimento. Um convite à pausa e à reflexão. Cada um de nós pode se perguntar:

  • Quais são os “pactos” que tenho feito sem perceber?
  • O que tenho buscado como fonte de satisfação?
  • As minhas escolhas estão ferindo ou fortalecendo quem está ao meu lado?
  • O que quero deixar como marca/legado no mundo?

Goethe não nos entrega as respostas prontas. Mas ele nos mostra, de maneira poética e inquietante, que viver sem refletir sobre essas questões é, talvez, o pacto mais perigoso de todos.

Especialmente em tempos em que, cada vez mais, A Sociedade do Espetáculo, prevista por Debord, se escancara a nossa frente.

Espero que esta breve reflexão sobre Fausto, de Goethe, possa lhe inspirar não somente a ler o livro (prepare-se para a segunda parte – risos), mas também a aplicar, em seu cotidiano, as interessantes reflexões que ele nos proporciona.

Então, é isso aí!

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No mais, desejo-lhe sucesso, saúde e serenidade.

Cíntia Amorim.

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