Este artigo foi produzido para mostrar o poder das entrelinhas. Como textos infantis, aparentemente simples, podem esconder profundas riquezas. Temas que podem dar início a diálogos construtivos e curativos.
Este artigo foi baseado na historinha infantil “A Princesa Estressada”. Clique aqui para ler a história na íntegra.
Ao final, fica o convite para você ir ainda mais fundo nas conversas e interações com sua crianças.
Comecemos, então!

A princesa estressada e as muitas reflexões lúdicas dessa história
Espero que você não faça como a princesa que, por descuido, perdeu a oportunidade de conhecer um belo de um príncipe. O que você acha? Quantos temas transversais você consegue encontrar neste texto infantil, pra conversar com os pequenos?
Pois eu vou lhe falar agora de um, digamos: um tiquim menos óbvio.
O Luxo do Castelo e a Fealdade do Pântano: Uma lição sobre Emoções e a Estética da Felicidade
Inúmeras vezes, na literatura infantil e no senso comum, os mapas da felicidade parecem já vir desenhados: o Castelo é o símbolo do sucesso, da segurança e da alegria. O Pântano é o estereótipo do fracasso, da sujeira e da tristeza. Mas, como geógrafa, convido você a olhar para além das linhas óbvias desse mapa.
Note-se que apenas esse tema pode ser abordado de diferentes maneiras, mas vamos nos focar no aspecto emocional, ok?
O Preconceito da Paisagem
Quantas vezes nós julgamos a saúde emocional de uma criança (ou de um adulto) pelo “cenário” em que ela vive? Temos a ideia de que se há um castelo: bons brinquedos, escola de elite, conforto e estrutura, a felicidade é garantida. É o determinismo do luxo: a ideia de que um ambiente rico produz, consequentemente, bem-estar.
Por outro lado, associamos o pântano, ou o bairro pobre, ao fracasso. Olhamos para a lama, para a umidade e para a falta de luz, de saneamento e sentenciamos: “aqui nada de bom pode crescer”.

Quando o Castelo é Prisão
A história da Princesa Estressada nos mostra que o castelo pode ser um lugar sufocante, onde não é permitido expressar fraqueza e frustração, por exemplo.
Ali ela não teve a liberdade de chorar a amargura do abandono.
Paredes altas podem isolar, e a cobrança por manter a pose de “a princesa do castelo” pode gerar uma ansiedade paralisante. Às vezes, o castelo é apenas uma caixa de luxo onde não há espaço para o erro, para o choro ou para o inesperado.
A fantasia do sucesso pode cobrar um alto preço. Dessa forma, o “sucesso” estético esconde um deserto emocional.

A Riqueza “Escondida” do Pântano
E o pântano? Na ecologia, o pântano é um dos ecossistemas mais ricos e biodiversos que existem. Sim, é feio pra caramba, porém, é lá que a vida se recicla, onde a água e a terra se misturam para criar novidades. Há abundância de vida.
Em um sentido mais emocional, na nossa vida interna, o “pântano” pode ser aquele momento de crise onde somos forçados a lidar com a nossa própria lama. E é justamente ali, na vulnerabilidade, que as descobertas mais profundas acontecem.
Já no aspecto mais geográfico mesmo, não raramente, é no lugar “feio/simples” que a pessoa encontra a liberdade de sair do status para poder apenas se expressar com naturalidade. Ser apenas um ser humano, com forças e fraquezas.
Desconstruindo a Imagem Social
É importante treinar nas crianças um olhar crítico. Ajudá-las a questionar o sucesso ou o fracasso como uma paisagem fixa.
- Por um lado, estar no castelo e sentir-se triste não é fraqueza ou ingratidão, pois o luxo não é um imunizante emocional. E claro, o bem-estar emocional não precisa ser vendido apenas numa embalagem chic. Ele pode florescer lindamente onde a riqueza não se mede apenas pela quantidade de dinheiro.
- Por outro lado, estar no pântano e encontrar beleza não é mediocridade ou comodismo. Encontrar refúgio e paz em um lugar não-bonito é completamente humano, pois lá é possível viver sem máscaras.
Às vezes, é no pântano que encontramos a nossa verdade, longe das cobranças de etiqueta do castelo.
Enfim, a estética não determina o bem-estar interior. Assim como a beleza não é sinônimo de bondade (Tolstói disse algo lindo sobre isso). Contudo, deixa eu encerrar por aqui, pois é possível escrever um artigo quase infinito sobre esse tema (risos).

História Infantil Curta com entrelinhas grandonas
Entonces, cê viu como é possível ir fundo numa simples historinha? Quer explorar os outros temas dessa história do Eixo Azul com sua criança? No Baralho Geral das Entrelinhas você aprende a conversar sobre qualquer eixo temático por anos a fio.
Uma maneira lúdica de criar laços de cura e carinho, por um preço que é mais um presente do Historinhas Poderosas para você.
Eu super recomendo o material para pais, avós, terapeutas que querem dialogar com a criança. E para os professores que ficam caçando jeito de fazer a aula render.
Descubra mais sobre Cíntia Amorim
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.